Sua chegada é percebida de longe, já que o rufar dos tambores são ouvidos à distância. Todos seguem em procissão atrás do bandereiro, responsável por carregar a bandeira-estandarte, conduzindo-a no ritmo da toada cantada pelo Mestre. O grupo toma conta da calçadas e das ruas sem pudor. Além dos músicos, vestidos como soldados com uniforme de mesma cor, chamam atenção os palhaços, figuras com máscaras nas faces e fantasias coloridas feitas para balançar enquanto eles dançam, rodopiam e brincam entre si. Todos eles fazem parte da Folia de Reis, festa profano-religiosa que teve origem por influência portuguesa, durante o período colonial e ainda é praticada com toda sua diversidade, bastante presente no sudeste brasileiro.
A Folia celebra o nascimento do menino Jesus e tem início dia 24 de dezembro e vai até dia 6 de janeiro, Dia dos Santos Reis. O folguedo que consiste na peregrinação pela cidade e visita às casas para abençoá-las, relata a viagem dos Reis Magos à gruta de Belém para adoração ao Menino-Deus. Os fiéis que recebem as Folias e desejam ser abençoados pela bandeira, oferecem em troca doações em dinheiro, alimentação e pouso aos peregrinos.
A tradição da Folia de Reis tem forte pelo forte apelo religioso, fruto de sua adaptação em solo brasileiro, quando os jesuítas buscavam pregar o catolicismo através de representações dramáticas, música e dança. Segundo seus integrantes é a devoção e o aspecto religioso que garantiu a continuidade das Folias, permitindo que se tornasse hoje o folguedo brasileiro mais antigo encontrado nas cidades do interior, assim como nos subúrbios das grandes cidades.
Na Região do Vale do Café existem registros de Folias de Reis desde o século XIX, tradição provavelmente iniciada pelos imigrantes mineiros. O movimento ainda é forte nos municípios de Valença, Vassouras e Rio das Flores, onde os encontros de Folias tornaram-se eventos anuais, que reúnem grupos de diferentes municípios para apresentação das suas danças e fortificação da tradição.
Em Rio das Flores o encontro dos grupos foliões acontece há 30 anos no distrito de Manuel Duarte, desde 2005 na praça onde uma gruta foi construída especialmente dedicada aos Santos Reis. O pesquisador e estudioso das Folias, Affonso Furtado, sempre envolvido na organização do evento conta que na localidade também acontece a encenação do Reisado, a representação da jornada dos Reis Magos em direção à manjedoura. É de Rio das Flores a Folia mais antiga da região, a do Mestre Tachico, que ainda hoje sai às ruas, sob supervisão de um parente do antigo mestre.
Em Valença o encontro das Folias é a segunda maior festa do município, reunindo cerca de 15 mil pessoas para assistir as apresentações que esse ano aconteceram dias 5 e 6 de janeiro, ao lado Catedral Nossa Senhora da Glória. Chico da Folia, presidente da Associação dos Grupos de Folias de Reis de Valença (AGFORV) que existe desde 2004, desenvolve um trabalho de catequização dos participantes ao longo de todo o ano para esclarecer as finalidades e significados dos rituais. Hoje existem 22 grupos na sede do município e com as ações da Associação, que também tornou-se ponto de cultura, cada vez mais integrantes se engajam na festividade.
Em Vassouras o evento aconteceu dia 6 de janeiro, Dia de Reis e pela primeira vez em muitos anos reuniu 8 folias dentro da Igreja da Matriz. Após a reza dentro da igreja, os músicos se juntaram aos demais para vê-los “bater o chula”, expressão que define a dança dos palhaços. Através da secretaria de cultura, Vassouras inicia processo pioneiro na região para registro e salvaguarda das Folias de Reis do município. A intenção é conseguir inicialmente recursos municipais para a manutenção dos grupos e assim trazer atenção do público para a riqueza e originalidade cultural da manifestação.
Fotos: Igor Alecsander (nº 1, 5 e 6) e Luísa Avelino (nº 2, 3 e 4).